Couto Mineiro
Os Mineiros do resto do País
Respingos do Douro - A febre do Volfrâmio | Respingos do Douro - A febre do Volfrâmio |
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| Escrito por Suporte | |
| 03-Set-2008 | |
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Texto retirado do Blogue O Serrano. Conta como foi a época em que o volfrâmio estava em alta na zona do Douro
Quando se fala no Douro, o pensamento vai imediatamente para o vinho. Absolutamente certo se pensarmos que, desde os tempos românicos que aqui há vinha, e as evidências são mais que muitas. Que mundialmente se tornou famoso desde há séculos, através do seu vinho generoso, o Vinho do Porto, consumido pelas velhas monarquias, proclamado em célebres filmes, disputado pelos mais ávidos comerciantes mundiais, o que levou o Marquês a Decretar a Zona Demarcada do Douro (a mais antiga do Mundo), por forma a regulamentar o comércio do vinho e assim evitar abusos, quer de adulteração do produto, fuga a impostos e, ao mesmo tempo controlo social.
São 40.000 hectares distribuídos ao longo das duas margens, deste Rio que se chama Douro. Património Mundial desde 14 de Dezembro de 2001. Mas a região, ao longo da história não tem sido feita só de glória! Pelo contrário: Além de um constante e árduo trabalho, tem também tragédia e miséria. O afastamento do litoral, as pragas ou viroses, as oscilações de mercado internacional, o ser considerado só como zona de lazer e portanto sem verdadeiro enraizamento, as guerras, etc.,etc. Mas, hoje pretendo falar de um outro factor, que está ligado ao Douro e nele teve grande influência. A chamada febre do minério! Guerra é guerra. É morte, miséria, fome e tragédia. É dor, luto, escravidão! É desgraça para muitos milhões, para sorte de alguns, os que procuram a guerra para seu exclusivo bem estar! Aqui, houve miséria, houve fome, mas também houve loucura! Quando se tem fome, quando se está na miséria, tudo serve para fugir ao desespero. Uma ténue esperança pode-se transformar num sonho, e um sonho remove uma montanha. As forças como redobram e até o velho se torna jovem! Tempo da Segunda grande Guerra! Pobreza extrema, miséria! Salazar joga com os dois blocos em confronto ( Alemanha e Inglaterra) de modo a não intervirmos directamente na guerra mas, fornecendo aos dois lados aquilo que na altura eram elementos imprescindíveis para sobrevivência humana e militar. As conservas e o Volfrâmio! As conservas para alimentação das frentes de combate, e o próprio nome, conservas explica tudo, quer no tempo de consumo ou condições climatéricas, enquanto o Volfrâmio tinha aplicações bélicas (essencial nos processos de reforço do aço, nomeadamente, nas blindagens, componentes de tanques, aviões, motores, etc) O Litoral e em particular o Algarve, forneciam as conservas. Trás-os-Montes e as Beiras, foram o principal fornecedor de Volfrâmio para a I e II Grandes Guerras e posteriormente para a Guerra da Coreia ( década de 50) Nestas duas zonas se estabeleceram Ingleses e Alemães, na exploração do Volfrâmio. Convém esclarecer um pouco de história, embora curta do que é o Volfrâmio. Minério de Tungsténio ( do sueco Tung Sten, que quer dizer “ pedra pesada”) descoberto por Peter Wolf, daí chamada Wolframite. Mais tarde Peter Scheele descobre um outro tipo de Tungsténio: a Scheelite. A diferença entre os dois é que a Wolframite é um tungsténio de ferro e manganês enquanto a Scheelite é um tungsténio de cálcio. Na g´ria, ao tempo eram conhecidos por Volfrâmio Preto e Volfrâmio Branco, esta última. Contudo, ambos extremamente impostantes para a altura bélica, e caríssimos na época. Vejamos. O volfrâmio em 1942 estava oficialmente cotado ao preço de 150 escudos o quilo; no entanto no mercado livre vendia-se a 500 escudos chegando no pico do conflito mundial a transaccionar-se a 1000 escudos. Nessa altura um mineiro ganhava 18 a 20 escudos por dia e um trabalhador rural 7 a 8 escudos, importâncias que permitem relativizar o valor do metal na altura. Imagine-se o que significava “arranjar” uma pedrinha com Volfrâmio! Quanto representava para a família, 100 gramitas! E se encontrasse uma mina? E, se em vez de andar lá nas galerias, se roubassem os transportadores, que iam entregar o produto, no fim do dia ou da semana! Fizeram-se fortunas num dia, ou num momento! Desfizeram-se sonhos num instante.
Raça de Portugueses! Corre-lhes nas veias o sangue latino, aventureiro, empreendedor. Em alturas de desconforto psicológico, moral ou de bem- estar, é destemido, aventureiro. “- medo eu? Eu cá não tenho medo a nada! Vamos a isso!”
“ 500 Paus o quilo do minério preto? Mas onde está isso, que vou já lá?” As serras encheram-se de buracos. Escava, aqui escava ali, e nada! “-Mas onde está o maldito, que só aparece aos Alemães? – Então só havia um remédio. Ir trabalhar para os Alemães, que haviam chegado em força e sabedores já, onde poderiam atacar o minério até ali ignorado. Os contratados, trabalhavam então de sol a sol, escavando as entranhas da terra, seguindo o filão de quartzo mineralizado. Abriam galerias, escavando e enviando para o exterior o material escavado, que posteriormente seria lavado e escolhido (falo em termos genéricos, porque o processo é mais complexo). Eram autênticas formigas a trabalhar. Uns escavavam, outros carregavam as vagonetas que transportavam a rocha e terra para o exterior, através de carris, enquanto outros iam escorando o espaço escavado, com troncos e tábuas. À saída do turno, cada um destes trabalhadores era apalpado e quantas vezes mandado despir, não fosse trazer algum pedaço de rocha com volfrâmio. Vinham cheios de lama, molhados mas, pior que isso, impregnados de silicose (a silicose é uma forma de pneumoconiose causada pela inalação de finas partículas de sílica cristalina e caracterizada por inflamação e cicatrização em forma de lesões nodulares nos lóbulos superiores do pulmão.Provoca, na sua forma aguda, dificuldade respiratórias, febre e cianose. Pode ser confundida como edema pulmonar, pneumonia ou tuberculose.) O quartzo é composto por tetaedros de sílica Quartzo ? É isso! Estava ali o segredo, descobriram os que não se queriam sujeitar a trabalhar lá nas profundezas. Em qualquer pedaço de monte, onde aparecesse um afloramento de quartzo, começavam a escavar, ao longo dele. Cinco seis metros e nada, nada do minério preto. Vinha então, ao de cima a malandrice, a ganância de riqueza rápida. Pegavam em pedaços miúdos da rocha branca, fritavam-nos em banha de porco, à lareira, porque o fumo sempre ajudava no embuste, até ficarem negros e luzidios. Parecia Volfrâmio !. No buraco já escavado, espalhavam o cozinhado e. faziam constar “à boca fechada” que em tal sítio começava a aparecer minério preto. Depressa se fazia negócio. À calada, como convinha às duas partes! “ Cinquenta, setenta notas de conto”. Para uns riqueza efémera. Para outros ruína maior! Havia um ritual que ficou célebre. O novo rico, adorava comer um caldo verde com bolachas. Era sinal de riqueza e de sucesso! E para culminar a celebração, enrolar um pedaço de tabaco Águia numa nota de dinheiro, era motivo de orgulho. Descoberto o embuste vinha a vingança. Os mais “espertos”, pegavam no dinheiro e família e mudavam de zona, para continuar o negócio. Os trapaceiros que ficavam, ou morriam ou matavam, mas ficavam debaixo de olho, marcados pela má fama. Entretanto, aqueles que continuavam a labutar debaixo da terra, iam ficando cansados e doentes. A tosse anunciava a tuberculose que aí vinha e a morte que se avizinhava. Os povoados começavam a encher-se de mulheres, algumas ainda novas, mas vestidas de negros, da cabeça aos pés. Só se viam viúvas, velhos mirrados e meia dúzia de crianças. Os poucos homens que iam restando, ou se arrastavam pelos cantos, pálidos, lenço sempre à mão para …encobrir o que toda a gente via ou adivinhava. Estava por pouco, o desgraçado! Os que restavam, andavam lá em baixo, nas profundezas, a gastar o resto das suas forças para ganhar o pão, para as suas famílias.
Mas, continuando… A febre emocional que se gerou na zona, por causa das riquezas que se obtinham com um pedaço de Volfrâmio, levou a que pessoas se deslocassem de Zona, indo para terras até aí quase desconhecidas, mas que dizia-se, havia minério! Parecia o Far West Americano. As mulheres tiveram também o seu papel importante nesta saga. Enquanto os homens trabalhavam nas minas ou até por conta própria, procurando por tudo quanto era serra onde pudesse escavar e procurar o minério, as mulheres descobriram uma outra actividade. Como disse já, existe um outro Tungsténio, a Scheelite, que era então conhecida por Volfrâmio Branco. Havia bons depósitos desse mineral. Havia e ainda há, como se comprovou há uns anos com a descoberta de uma grande jazida (colaborei nesse projecto), que chegou a ser considerado dos mais importantes da Europa, mas que, depois de investigado até aos 80 metros de profundidade, através de sondagens, foi abandonado. O preço do minério não compensava a exploração. Está lá, não azeda. Na margem esquerda do Rio Douro, no topo do monte foi encontrado um filão de Scheelite. Os homens escavavam a céu aberto de modo a pôr a descoberto a rocha, para posterior desmonte. Cá em baixo, na aldeia corria um regato, para onde as mulheres costumavam ir lavar roupa. Num ápice tudo mudou. Elas, logo pela manhã, carregavam o cesto de verga, onde levavam os filhos ainda pequenos e um alguidar de alunínio! Tinham aprendido a lavar a terra que iam extraindo do regato ou da margem que ficava por baixo dos trabalhos mineiros. O declive do monte e a chuva iam transportando pedacinhos de minério. Já com “arte”, mergulhavam o alguidar cheio de terra e iam esfregando. Rodavam o alguidar com cuidado e a água ia levando a argila já solta. Passado um tempo, depois de muito repetirem esta operação, lá estava, no fundo o tal pó branco. Metiam-no em saquinhas e levavam para casa. À noite, poderiam dizer aos maridos: “ Olha, consegui arranjar uns saquinhos de pó. Quando tivermos mais uns poucos temos que falar com o “engaijador” para o vender” Entretanto, ia escondendo os saquinhos num buraco de parede, porque o comercio de minério estava vedado a particulares. Mas esta actividade de garimpeira, não era pacífica. Às vezes, quando chegavam ao local de lavagem e que já consideravam de sua propriedade, esta já estava ocupado por outra mulher. Pousavam o que levavam e: “- Desanda-me já daí, que esse lugar é meu. Pira-te sua ladra desavergonhada!”. A outra, ou lhe fazia frente ou tinha que ir procurar outro lugar! E, debaixo do avental, metido numa sacola presa à cinta, estava um pistolão. O primeiro tiro, sempre poderia acertar, porque eram armas de carregar pela boca! Eram autênticas mulheres de barba rija ou pêlo na benta, como eram apelidadas. Entretanto, ia-se desenrolando uma tragédia silenciosa. As mães, quando iam para os regatos lavar o minério e se tinham filhos pequenos, ou os levavam dentro de cestos de verga ou os deixavam em casa a dormir. Debatiam-se com um problema: as crianças tinham que dormir o máximo de tempo possível, para elas poderem labutar o mais possível! Embebedavam as crianças! Se tinham leite materno para as alimentar, depois davam-lhes umas colheres de chá, de vinho. Se não tinham e precisavam de leite de cabra, faziam o mesmo tipo de mistura. Até aguardente chegavam a misturar no alimento que lhes davam! Triste miséria humana. Ignorância desumana Esta situação continuou por muitos anos. Quem foi ou ainda é Professor, se lembrará de crianças que chegavam à escola pela manhã, a cheirar a vinho. O álcool já fazia parte dos seus hábitos alimentares desde bebé! Esta história, foi-me contada por uma simpática velhinha, já há muitos anos, no regato onde ela própria correu a tiro uma outra mulher, de uma aldeia vizinha, que para ali tinha vindo lavar o minério branco! “ – Ai senhor, - dizia-me entre lágrimas -. Aquilo é que era tempo de fome e miséria! Mas era nova, cheia de força. Agora, estou pr’aqui uma velha, à espera que o Senhor Deus me leve…”
O entusiasmo escorre-lhe pelo rosto. Aqueles olhos habitualmente distantes, parecem adquirir vivacidade, quase brilho, num homem com aquela idade. Parece que uma nova juventude lhe dá forças Já passou e bem a casa dos oitenta, ouve mal e anda sempre encostado a uma muleta. São medalhas do passado! Todos os dias o Táxi o vai buscar a casa, por volta da 1 da tarde. É a sua maneira de mostrar postura perante a vida! Senta-se à mesa de café, toma o seu cafezinho e procura o jornal. Lê e relê, até o sono tomar conta dele. Acorda. Se há parceiros para uma partida de sueca, lá passa umas horas. Se está bom tempo, vem até ao sol, procurar um pouco de conversa. É um autêntico livro aberto, cheio de histórias e de vida. Histórias essas que prometeu contar-me e que passam apara além do Volfrâmio “ – Cheguei a juntar 500 quilos. O negócio já estava tratado e tudo combinado. Só que o contacto demorou mais que o esperado e acabou a guerra. Pronto, lá se foi a fortuna. O preço veio logo para vinte escudos”, - vai contando. “ Ladrões? Ui, era o que havia mais. Uma vez, de noite, batem-me à porta. Era um tipo com um saco de minério. Queria que lho comprasse. Disse-lhe que sim mas que aquela hora da noite não dava para ver. Que o deixasse ficar e eu via ao outro dia. Não senhor, não podia ser porque o minério era roubado. Sem ele dar conta, meti a mão no saco e tirei uma pedra. Pronto, está bem, volte então amanhã. Ao outro dia peguei na pedra e vi que era castanha. Não era volfrâmio, era da parte de lá do Marão ( hematite?). Naquela altura, tudo o que tivesse peso…era minério!” ” –Ainda me fui aguentando e quando já estava para desistir, rebentou a Guerra da Coreia. Foi a maluqueira, outra vez! O preço subiu outra vez para 500, 700 e até mil escudos”. “ Eu governava a vida com o minério que arranjava, com o meu pessoal e com aquele que me vinham vender. Então, ia à Bila ( Vila Real) e deixava-os lá numa Pensão a um rapaz da minha idade. `A patroa não! Ao empregado, que era um rapaz da minha idade e que eu sabia que tinha negócios com os “engaijadores”. O sacana tirava sempre duas ou três pedras de cada saco e fazia sempre a sua maquia, mas dava para todos! Mas, quando acabou, se pobre fui, pobre fiquei… e ele ficou com uma das maiores fortunas da zona” A nostalgia vem-lhe ao rosto. Começa a notar-se-lhe tristeza na voz e no olhar. Tenho que o revigorar. “ – Havia o negócio das “raitadas”! – recupera a alegria - “ Era feito de noite. Punham-se à pesca, de dia, perto da mina. Quando estava noite, convidavam o guarda da mina para comer os peixes e embebedavam-no. Então iam ao depósito do minério e roubavam o minério. Mas tinham que fugir, porque haviam os vigias, que andavam armados e atiravam a matar. Naquele tempo, andava tudo armado. Era fácil ouvir tiroteio, aqui e acolá! A gente até já nem ligava.”- O reviver mentalmente aquelas loucas aventuras, devolveram-lhe entusiasmo. Parecia até tremer, enquanto ia falando. A muleta, no braço direito, parecia uma picareta a desbravar rocha e terra. Agora desbravava a memória e as saudades do tempo de rapaz. “ – Mas, quantas vezes conseguiam enganar os vigias e, indo serra fora p’ra esconder o minério e numa encruzilhada, lá estavam eles. Chapéus enterrados até às orelhas, lenços a cobrir os olhos, arma apontada: - passa para cá o minério, ou morres já aqui! - Lá tinham que entregar tudo e voltar para trás. Tanta luta para nada. Os outros, os que andavam a assaltar é que governaram a vida. Sem se molharem ou sujarem ficavam com o minério. Foram esses que ficaram com as grandes fortunas que apareceram no Douro. Não demorou muito tempo, quando começaram a aparecer os carros, que eles se apresentavam com grandes “espadas”, compravam tudo e começaram a aparecer de gravata e charuto! Para esse é que o minério foi bom. Toda a gente lhes tirava o chapéu e os tratava por Senhor .!”
O Douro, ciclicamente, é atormentado por um qualquer flagelo que traz desgraça, fome e miséria. As chagas abertas pela Filoxera ainda não estavam saradas. Havia famílias que haviam fugido da beira do rio, do xisto, da zona demarcada pelo Marquês de Pombal, para procurarem subsistência, lá para os altos, onde a praga não chegasse. Deambulavam de terra, em terra à procura do sustento. O Douro demorava a retomar vida (abro um parêntesis para aconselhar a leitura do livro de Francisco Moita Flores, intitulado “ A Fúrias das Vinhas”). Foram experimentadas novas culturas, como o tabaco! Nada! Parecia que a terra nada queria com os durienses! O aparecimento do Volfrâmio deu novo ânimo às pessoas. Era uma nova oportunidade de vida, era a procura de melhores condições, era a salvação!. Esta ânsia, desespero, vontade de viver, explicará porque se cometeram tantas loucuras. Também explicará um velho ditado:“…na terra dos cegos, quem tem um olho, é rei! “
Pelas zonas, onde era constado que havia “minério”, concentravam-se centenas de pessoas, vindas de todo o País e até do estrangeiro. Num belo e exemplar trabalho apresentado pelo Curso de Geologia da UTAD , em exposição feita em Sabrosa – Vila Real, subordinado ao tema “ Reviver o passado do Vale das Gatas”, é descrito que laboraram no auge desta mina de exploração de Volfrâmio cidadãos oriundos de 48 concelhos de Portugal e de alguns países estrangeiros! Elucidativo. Vinham para arranjar minério, procurar a sorte, fazer fortuna. Salazar, no seu jogo de não entrar na guerra, servindo os dois blocos em confronto, é obrigado a proibir a exportação do volfrâmio. Os preços caem a pique e, entretanto, acaba a guerra. Os Alemães, predominantes donos das minas, ao saberem da proclamação do V.E Day ( Dia de Vitória na Europa), em Tratado assinado por Churchil e Truman, desaparecem do dia para a noite. Fica um! No Vale das Gatas. Aí permanece, constitui família e prossegue com a laboração da Mina. Sujeitos à vigilância, ao medo, às “raitadas”, aos assaltos, à luta clandestina por um pedaço de volfrâmio, estes milhares de pessoas lançam-se desordenadamente ao assalto das minas sem dono. Se até aí, o trabalho era duro, desumano e policiado, mas com o mínimo de segurança no interior das minas, obedecendo às regras da altura, ou seja avanço e escoramento do espaço escavado para evitar desmoronamentos, deu lugar à loucura! As pessoas entravam desordenadamente nas minas e escavavam sem o mínimo de cuidado em escorar os avanços. Sofregamente escavavam, escavavam, à procura do filão mineralizado. Se eventualmente havia um “cavalgamento”, uma falha ( torções ou desvios, simplificando) do filão, desorientados escavavam buracos por todo o lado. Muita gente morreu soterrada Muitas lendas surgiram, desde então! Em princípios dos anos 80, procedia ao levantamento de uma mina abandonada. Era importante estudá-la por ser uma referência na zona. Daria informações importantes, àquela profundidade, da geologia da zona. Era impossível entrar pela boca. Era um autêntico lago. Descobriu-se através de um miúdo que por ali andava com o gado, da existência de uma chaminé de acesso à mina. Uma cabra que por lá caíra e o medo de chegar a casa sem ela, obrigou o miúdo a descer até lá dentro. Descoberto o segredo, deu para verificar que o tal lago era somente na entrada e seria fácil de retirar a água. Requisitadas bombas de água aos Bombeiros locais, em quatro horas tivemos condições de segurança para entrar na mina. Avancei com um colega. Relembro a galeria central, ao longo do filão principal, com pequenas galerias laterais, de detecção. Pelo centro, vários poços, cheios de água, mas que tinham servido para detectar os tais ressaltos do filão principal. Demorámos duas ou três horas. Quando se está lá dentro, parece que se esquece o mundo exterior. Somos nós, o silêncio e a rocha, que em surdina parece que nos comunica algo. O tempo passa por nós, sem nos apercebermos que há um relógio que teimosamente avança, um sol que se esconde, ou uma realidade exterior que esquecemos, entretanto. De repente, um “chapinhar” chama-nos a atenção! Chap, Chap, Chap,! Vozes lá ao longe: “ – Anda cá, para onde vais, desgraçado?” Acabou-se o trabalho! O perigo daqueles poços no meio da galeria alertou-nos de que algo poderia acontecer. Corremos para a boca da mina e deparámos com um homem, manco, agarrado a um varapau que avançava pela mina dentro. “ – Para onde vai homem? Que anda aqui a fazer?” “ – Se vocês entraram eu também posso entrar! Há anos que ando p’ra fazer isto, mas tinha cagaço. Agora já me posso gabar que entrei cá dentro!” – responde-nos cheio de orgulho. Tínhamos que o acompanhar à boca da mina. Era um perigo, ele estar ali! Conforme avançamos, vamos vislumbrando muitas silhuetas, todas inclinadas, a olhar lá para dentro. É espanto contra espanto! Que faz tanta gente ali? Olhos penetrantes, incrédulos, olham quem se aproxima, debaixo daqueles fatos de borracha verde. O homem que mancava mexia-se como se comandasse uma banda de música. Nós sentíamo-nos como se fossemos almas do outro mundo. Quando o resto da claridade do dia nos apanha de frente, dez ou quinze pessoas começam a bater palmas. “- Estão vivos, estão vivos”! Heróis! Rezava a lenda que, quem entrasse ali, lá dentro morreria! Nós voltámos. E, connosco vinha o manco. De certeza que o homem que mancava se tornou herói local. Para nós, acabado o trabalho, fomos à procura de novas sensações.
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