Couto Mineiro
Os Mineiros do resto do País
Respingos do Douro- Tributo aos mineiros | Respingos do Douro- Tributo aos mineiros |
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| Escrito por Suporte | |
| 03-Ago-2008 | |
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À memória de todos esses homens e mulheres, que tanto contribuíram para o enriquecimento do erário público, tendo a grande maioria morrido na miséria e dor, deixo um testemunho real:
… De minha casa só não tinha acesso à intimidade do seu pequeno quarto de dormir (que mais não era que uma nesga no canto da casa de granito onde vivia). Nada mais via porque não me queria dar ao trabalho de ir à sacada, chegar-me à direita e espreitar! Pelas minhas contas de agora, deveria ser homem aí para os seus trinta e poucos anos. Alto e magro, pai de duas crianças cujos nomes eram muito invulgares para aquele tempo. Se fosse hoje, no meio de tantas Vanessas Susanas, Rutes Sofias, etc. nem davam nas vistas. Mas, naquela altura chamavam-se Regina Célia e Joana Margarida. E, se calhar, é por esta particularidade que ainda me lembro do senhor João Ceia. Pelo nome das filhas e por ser mineiro! A sua vida profissional, impedia-o de grandes tratos com a vizinhança mas da sua maneira de ser, pacata e afável, todos deduziam que era um bom homem. O senhor João era mineiro nas minas de Volfrâmio do Vale das Gatas. Para lá corria todos os dias, ou melhor, todas as noites, pois saía de casa às 4 da manhã, Verão ou Inverno. Quando regressava a casa e eram 2 horas bem medidas, vinha tão fatigado que era só comer o aprezigo e a sopa quente, que a mulher lhe deixara nos braços do mourão, com uma brasas por baixo. Comia e ia logo descansar! À tardinha, no verão, sentava-se no degrau da varanda de granito e ali se punha a preparar o material para o dia seguinte. A segurança da sua vida estava quase só nas suas mãos e nos seus cuidados. Enchia o gasómetro de carboneto novo, atestava o pequeno reservatório de água e com uma agulha desentupia o bico do gasómetro. Substituía, quando necessário a pilha da pequena lâmpada do capacete, a quem chamava simplesmente “a pilha”. Por fim, remendava como podia as velhas botas, com muito cuidado, para aguentarem as jornadas diárias. Duas horas para ir e duas para voltar! De madrugada, pelo frio e na escuridão, passava no caminho romano por baixo do meu quintal e eu, como o via chegar, sabia que ele levava, para além do gasómetro, um saco de pano aos retalhos onde cabia o sustento da sua longa noite de trabalho: um pedaço de bola de centeio e, nos dias melhores, uma posta de bacalhau frito com ovos e salsa. E a pinguita, claro. Pouco, pouquinho, para não fazer asneiras. Ao fundo daquele caminho, encontravam-se com ele os “Bombos” que vinham do extremo este da aldeia. Um dia o Senhor João chegou ao pé deles esbaforido. Não era homem de palavrões, porque se fosse esse o caso, quase se podia dizer que lhe vinham aos lábios como se fosse uma trovoada! Ao espanto dos outros respondeu: “- Ora, não quereis saber? Vem a gente matar o corpo p’ra ganhar a vida e há-de dar logo de madrugada com tal “arranjo”. Então não vedes que ali em cima na encruzilhada, fui dar de caras com uma “ mesinha” de velas a arder, moedas e não sei o quê mais, dentro d’uma lata! Preguei-lhe um pontapé, que foi logo para “ os quintos dos Infernos” “ – Ò João, tu mexeste naquilo? Olha que dá azar. Diz que é perigoso!!!” “ – Não sei se dá azar ou não!!! …Vêm pr’aqui atentar um home….Só queria ver a desavergonhada que anda nestas bruxarias. Era home pr’a lhe dar meia dúzia de arrochadas!....” “ – Está bem, está. Cá por mim dou-lhes o caminho todo, que às vezes um home corta-as….” E lá foram “neste falar” até às poldras. Aquilo passou. Algum tempo depois, o senhor João deu em emagrecer. Pálido como um cadáver, as orelhas transparentes e enfiadas….Não se lhe via resto de saúde. Quase se arrastava até ao trabalho. Até que deixou de ir. Vai daí, começou a constar-se que o João Ceias estava embruxado. História contada e recontada pelos Bombos, que juravam a pés juntos tal história ser verdade. Mas, da minha casa, frente às suas janelas, um som cavernoso vinha, (tantas vezes!!!) interromper a sesta dos meus Pais e perturbar as brincadeiras da canalhada, na rua do Paço. E, numa dorida compaixão, eu ouvia também ao jantar, no segredo da família: “- Coitado! Não é cá velho…” E não foi. Finou-se após muito sofrimento. Mas, no imaginário colectivo da povoação ficou a dúvida: Feitiço ou mal dos mineiros?
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